sábado, 26 de novembro de 2011

Pelo menos 40 mortes e 2 mil feridos

É gritante para nós brasileiros saber que em poucos dias dezenas de pessoas são mortas em confronto com a polícia. Números assim no País apenas na Ditadura Militar. No Egito, o número de mortes já ultrapassa 40, segundo agências de notícias internacionais. Até o momento, os manifestantes não recuaram e insistem pedindo que o exército deixe o poder.  Pelo menos mais de 2 mil pessoas estão feridas. As manifestações no Egito reiniciaram na semana passada.

Meio de transporte "eficiente"

Enquanto as manifestações ocorrem no Egito, posto uma imagem curiosa sobre o meio de transporte no País. Embora seja engraçado, mostra a precariedade em que vive os egípcios.

No Brasil, discutimos um meio de transporte público adequado, com tarifas populares e que ofereçam acessibilidade para quem precisa, mas no Egito vans mais velhas fazem o trabalho de levar e trazer o povo. São milhares delas espalhadas pelo Cairo. De portas abertas, elas levam qualquer pessoa para qualquer lugar da capital e acabam sendo eficientes. O preço para andar nos veículos custam entre uma ou duas libras egípcias.

Egito perigoso para jornalistas mulheres

Uma notícia do jornal Folha de São Paulo deixa, pelo menos, com medo mulheres jornalistas que vão ao Egito. Segundo o periódico, "a organização RSF (Repórteres Sem Fronteiras) recomendou aos meios de comunicação internacionais que não enviem mulheres jornalistas ao Egito, depois de uma série de agressões sexuais".

É de se espantar uma situação como essa, embora manifestações - com mais de 200 mil pessoas - deixam a segurança do local vulnerável.

A Folha conta duas situações. Uma jornalista egípcio-americana relatou que foi agredida sexualmente pela polícia durante horas. Já a outra repórter francesa disse que também sofreu com o mesmo crime.

"Além de me golpearem, aqueles cachorros [referindo-se à polícia antidistúrbios] me submeteram às piores agressões sexuais", disse a egípcio-americana Mona al Tahawy no Twitter, segundo a Folha.

O mais engraçado foi a desculpa de um militar egípcio para o acontecido. "O que ela pensou que iria acontecer? O País está em uma situação sensível, estamos sob ameaça. Ela poderia ser uma espiã".

Lastimável.

Link para a matéria completa da Folha: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1011853-ong-desaconselha-viagem-de-mulheres-jornalistas-ao-egito.shtml

Polícia resolve atirar na cabeça

O portal Terra trouxe à tona no dia 23 de novembro o depoimento de um egípcio que tinha como marca da revolução uma cicatriz no ombro e um curativo no olho. Ele esteve em confronto direto com os soldados. Conforme relato no site, Mustafa al Sorour, 21 anos, conta que agora a polícia está mirando diretamente na cabeça das pessoas, sem dó nem piedade.

"Disseram que a polícia estava usando um tipo mais forte de gás lacrimogênio e que disparava balas de borracha mirando na cabeça das pessoas", relata Mustafa ao portal Terra.

Link para quem quiser ler na íntegra: http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5489776-EI17594,00-Policia+passou+a+mirar+na+cabeca+diz+manifestante+egipcio.html


sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Turismo sofre novo golpe

Comércios no Cairo Velho, local bastante visitado por turistas
Boa matéria da BBC Brasil sobre a queda do turismo no Egito. Segue link:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/11/111125_cairo_egito_turismo_protesto_ts.shtml

EUA querem o fim do governo militar no Egito

Os manifestantes egípcios ganharam um aliado de peso na última semana. Embora os Estados Unidos seja acusado por muitos de vender armas para os soldados egípcios, o País americano quer a saída de militares do poder. Em nota, a Casa Branca quer a troca imediata para um governo civil, e sem mais mortes.
Até o momento mais de 1,5 mil pessoas ficaram feridas e pelo menos 40 mortas nos confrontos.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Feridos passam de 5 mil

Cada vez mais pessoas ficam feridas no Cairo. E o número pode ser bem maior do que o divulgado pelas agências de notícias. Em um rápido e conturbado telefonema para o interprete que me guiou pelo Egito em setembro, ele diz que os feridos passam de cinco mil. Ele acrescenta que as ruas em volta da praça Tahrir se transformaram em hospitais improvisados para conter as centenas de pessoas que acabam levando tiros de borracha e sofrem com o gás lacrimogêneo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Primeiro o exército. Depois as eleições

Na segunda-feira (28) inicia as eleições legislativas no Egito, mas os manifestantes querem que a junta militar deixe o governo antes. Como muitos já haviam adiantado quando estive no País, a segunda luta é para retirar o exército do poder e depois fazer as eleições e melhorar a vida do povo. Enquanto isso, os militares seguem tentando segurar a bomba relógio como dá.

Em dois dias, 14 mortos e 750 feridos

Praça Tahrir, símbolo da revolução no Egito, vazia em setembro
Não demorou muito o período de “paz” no Egito. No final de semana, como já era previsto desde que estive lá em setembro, manifestantes retornaram para a praça Tahrir pedindo o fim do governo militar e as eleições para presidente. Pelo menos 14 pessoas morreram e mais de 750 ficaram feridas em dois dias de protestos no Cairo e cidades vizinhas.
Com tanta violência, a ideia foi instalar um hospital na praça Tahrir para atender os feridos. Segundo a Agência Brasil, o médico egípcio Mohammed Fattouh diz que já atendeu quatro pessoas feridas a bala e que três morreram por asfixia.
Os novos conflitos no Cairo iniciaram após a polícia tentar retirar manifestantes da praça Tahrir. No começo da noite de domingo (20), os embates entre policiais e populares se estenderam para as ruas próximas ao Ministério do Interior – localizado perto da praça. Enquanto policiais agiam com armas de fogo e gás de pimenta, manifestantes atiravam pedras.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Artigo sobre o Egito

Após as manifestações no Egito, muitos artigos apareceram. Um chamou a atenção e coloco ele na íntegra.


Por Mohamed Bamyeh, do Jadaliyya (ezine independente produzida pelo Instituto Árabe de Estudos), em 6.2.2011 | Tradução: Bruno Cava

Nunca uma revolução que parecia tão sem perspectivas ganhou ímpeto tão rapidamente e tão inesperadamente. A Revolução no Egito, começando em 25 de janeiro, careceu de liderança e teve pouca organização. Seus eventos decisivos, na sexta, dia 28 de janeiro, ocorreram num dia quando todas comunicações, incluindo todos os telefones e a internet, foram bloqueadas. A revolução aconteceu num grande país conhecido por uma vida política sedada, um legado muito longo de autoritarismo contínuo, e um aparato repressor impressionante, com mais de dois milhões de membros. Mas nesse dia, o regime de Hosni Mubarak, encastelado há 30 anos e que parecia eterno, o único regime que a vasta maioria dos manifestantes já conheceram, evaporou em um dia.

Embora o regime continue a batalhar, praticamente pouco governo existe. Todos os ministérios e órgãos governamentais foram fechados, e praticamente todos quartéis da polícia foram postos abaixo em 28 de janeiro. Exceto pelo exército, todo pessoal de segurança despareceu, e uma semana depois do levante, somente poucos policiais aventuraram-se nas ruas de novo. Comitês populares desde então têm assumido a segurança dos bairros. Vejo patriotismo expresso por toda parte na forma de um orgulho coletivo, na percepção de que pessoas que não se conheciam entre si podem agir juntas, intencionalmente e com um propósito. Durante a semana e meia seguinte, milhões convergiram às ruas em praticamente todos os lugares do Egito, e se podia ver empiricamente como uma ética nobre — comunidade e solidariedade, cuidado com os outros, respeito pela dignidade de todos, sentimento de responsabilidade pessoal — emergiu precisamente quando da desaparição do governo.

Sem dúvida esta revolução, que continua a desenvolver-se, pode ser um evento fundante das vidas de milhões de jovens que se lançaram a ela no Egito. Talvez também de muitos outros milhões de jovens que a acompanharam pelo mundo árabe. Está claro que provê à nova geração uma grande demonstração do tipo que tem moldado a consciência política de cada geração anterior, na história árabe moderna. Todas essas experiências fundantes de gerações passadas também asseguraram importantes momentos nacionais, seja nas derrotas catastróficas, seja nos triunfos contra as potências coloniais ou aliados.

Esta revolução também deixará marcas profundas no tecido e mentalidade sociais por muito tempo, mas de um jeito tal que vai além da juventude. Enquanto a juventude era a força viva dos primeiros dias, e revolução rapidamente se tornou nacional em todos os sentidos. Com o passar dos dias, vi uma mistura demográfica crescente nas manifestações, onde pessoas de todos os grupos etários, classes sociais, homens e mulheres. Muçulmanos e cristãos, moradores da cidade e camponeses — virtualmente todos os setores sociais, agindo em grande quantidade e com uma determinação raramente vista antes.

Cada pessoa com quem falei ecoou temas similares de transformação. Sublinharam o seu maravilhamento em como descobriram de novo o vizinho, em como nunca souberam o que era viver em “sociedade”, o sentido dessa palavra, até este evento, e como cada um que ontem parecia tão longe, agora está tão perto. Vi mulheres camponesas fornecendo cebolas aos manifestantes, para ajudá-los na recuperação dos lançamentos de gás lacrimogêneo; jovens dissuadindo outros de atos de vandalismo; o Museu Nacional sendo protegido da pilhagem por um cordão humano; manifestantes protegendo inimigos capturados de serem feridos covardemente, e incontáveis outros incidentes de civilidade generosa em meio à destruição e caos dominantes.

Também vi como as demonstrações alternaram entre cenas de combate e círculos de debates, e como elas proveram um espetáculo renovado em que cada um podia ver os diversos segmentos da vida social convergindo na idéia comum de derrubar o regime. Enquanto a mídia mundial ressaltava o caos incontrolável, as implicações regionais e o espectro do islamismo no poder, a perspectiva da formiga revelou a relativa irrelevância das supracitadas considerações. À medida que a Revolução se delongava mais e mais em cumprir a missão de derrubar o regime, os manifestantes eles mesmos começaram a despender mais tempo realçando outras realizações, tais como o surgimento de uma nova ética precisamente no meio do caos. Isto evidenciou a partilha de um senso de responsabilidade pessoal pela civilização — limpeza voluntária das ruas, não sair da linha, a desaparição do assédio a mulheres em público, a devolução de objetos furtados ou achados e incontáveis outras decisões éticas que geralmente são ignoradas ou deixadas para os outros se preocuparem.

Existem aspectos básicos associados com este evento magnífico que são vitais, eu penso, para entender não somente a Revolução Egípcia, como também os levantes árabes de 2011. Esses aspectos incluem: o poder de forças à margem do sistema; a espontaneidade como a arte do movimento; o caráter cívico em contraste ético à barbárie estatal; a prioridade do político sobre todas outras demandas, inclusive econômicas; e por último a surdez autocrática, significando o despreparo doentio das elites no poder em escutar as primeiras reverberações, reduzidas por elas a ruído do populacho que poderia ser facilmente calado com os meios usuais.

Em primeiro lugar, a marginalidade significa que a revolução começou nas bordas. Na Tunísia, começou desse jeito, em áreas marginalizadas, a partir das quais migrou à capital. E da Tunísia, ela mesma relativamente marginal no contexto mais amplo do Mundo Árabe, viajou ao Egito. Obviamente a situação em cada país árabe é diferente, em termos de indicadores econômicos e grau de liberdade, porém me impressionou quão consciente a juventude do Egito era do exemplo tunisiano que lhe precedeu em apenas duas semanas. Muitos me disseram o orgulho que parecia ser concretizar em poucos dias o que os tunisianos levaram um mês.

A marginalidade parece ter sido um fator importante no Egito também. Enquanto boa parte da mídia foca na Praça Tahir e em Cairo central, aonde fui todos os dias, a grande presença lá era uma expressão de uma possibilidade [de extensão do movimento], o que subitamente ficou evidente em 25 de janeiro, quando grandes protestos irromperam em 12 províncias egípcias.

Em segundo lugar, em todos os sentidos a revolução manteve através de si uma natureza de espontaneidade, no sentido que não contou com organização permanente. Em vez disso, as necessidades de organização — por exemplo governar como comunicar o que fazer no dia seguinte, quem chamar naquele dia, como remover os feridos, como repelir os assaltos inimigos, e como formular as demandas — emergiram no campo direta e continuamente, para responder às novas situações. Além disso, a revolução careceu de liderança reconhecida do começo ao fim, um fato que pareceu importar mais aos observadores, mas não aos participantes. Vi vários debates em que participantes fortemente resistiam serem representados por qualquer grupo ou líder preexistente, assim como resistiam às solicitações que designassem “representantes”, com quem alguém, como al-Azhar ou o governo, pudessem tratar. Quando o governo pediu que alguém fosse designado como porta-voz para a revolta, muitos participantes desafiadoramente nomearam um dos desaparecidos, só esperando que essa designação pudesse acelerar a sua reaparição. Uma declaração comum que ouvi foi “quem decide é o povo”. Pareceu que a idéia de poder popular se tornou grande demais para ser representável por qualquer autoridade concreta ou liderança, ou então que essa representação viria a diluir a implicação profunda, quase espiritual, da noção de “o povo”, como um ser completo em movimento.

A espontaneidade foi um elemento-chave porque tornou a Revolução difícil de prever ou controlar, e porque conferiu um nível incomum de dinamismo e leveza — tão grande que muitos milhões permaneceram completamente comprometidos à prioridade coletiva de derrubar o regime, representado por seu presidente. Mas também pareceu que a espontaneidade teve papel terapêutico e não apenas organizacional ou ideológico. Mais do que um participante me disse como a revolução era psicologicamente libertadora, porque toda a repressão que eles tinham internalizado e a autocrítica e a percepção de fraqueza inata eram no humor revolucionário extravasado em energia positiva e na descoberta da autoestima, de uma conexão mais real que superficial com os outros, e o poder ilimitado de mudar uma realidade congelada. Ouvi o termo “despertar” sendo usado sem parar para descrever o movimento como um todo, como um tipo de emergência espontânea para fora de uma condição de profunda dormência, que nenhum programa partidário pôde chacoalhar antes.

Ademais, a espontaneidade foi responsável, aparentemente, pelo crescente escopo de metas do levante, partindo de básicas demandas reformistas em 25 de janeiro, à mudança total do regime três dias mais tarde, e então à rejeição de todas as concessões feitas pelo regime enquanto Mubarak estiver no poder, e [finalmente] a levar Mubarak a julgamento. Remover Mubarak não era de fato uma demanda séria de todo mundo em janeiro de 25, qando os slogans relevantes condenavam a possível candidatura de seu filho, e convocavam Mubarak a não se candidatar de novo. Mas no final do dia em 28 de janeiro, a remoção imediata de Mubarak de seu gabinete tinha se tornado um princípio inamovível, e com efeito parecia que isso iria acontecer. Aqui se percebeu o que era possível através de um movimento espontâneo, em vez de um programa, organização ou liderança estáticos. Espontaneidade então se tornou o compasso da Revolução e o modo pelo qual encontrou seu caminho, até atingir o seu destino radical.

Provou-se difícil portanto persuadir os manifestantes em desistir do caráter espontâneo da Revolução, uma vez que a espontaneidade já tinha provado a sua força. Espontaneidade então gerou mais confiança que qualquer outro estilo de movimento, e dessa confiança emergiu, tão longe se podia ver, a disposição dos manifestantes em sacrificar-se e ao martírio. Espontaneidade também apareceu como modo pelo qual o caráter carnavalesco da vida social foi trazido ao teatro da revolução, como forma de expressar a liberdade e a iniciativa popular; por exemplo, entre milhares de faixas e cartazes que vi nas demonstrações, não havia quase nenhum dos padronizados (como se veria numa passeata pró-governo). Em vez disso, a maioria absoluta dos sinais era individual e feita à mão, escrita ou desenhada sobre todos os tipos de materiais e objetos, e era orgulhosamente exposta pelos próprios autores, que desejavam ser fotografados por outros. Espontaneidade, além disso, provou-se altamente útil para a comunicação em rede [networking], pois a revolução se tornou essencialmente uma extensão da natureza espontânea da vida quotidiana, em que cada pequeno detalhado planejamento era preciso ou possível, e no qual a maioria das pessoas já estava acostumada a resolver comunicando-se com os outros em rede, em meio à imprevisibilidade do dia-a-dia, vigente em tempos ordinários.

Mas enquanto a espontaneidade propiciou à Revolução muitos de seus elementos de sucesso, também significou qua  transição à nova ordem seria projetada pelas forças existentes de dentro do regime ed a oposição organizada, uma vez que os milhões nas ruas não tinham nenhuma força singular que pudesse representá-los. A maioria dos manifestantes com quem falei, contudo, parecia menos preocupada com esses detalhes do que no cumprimento das demandas básicas, que, aparentemente, garantiam a natureza mais justa de qualquer sistema subsequente. Como finalmente elbaorado uma semana depois do início da Revolução, essas demandas se tornaram as seguintes: remoção do ditador, dissolução do parlamento e eleição de um novo, emenda à constituição para reduzir o poder presidencial e garantir mais direitos, abolir o estado de emergência, por em julgamento os funcionários de alto escalão corruptos, bem como todos aqueles que ordenaram atirar nos manifestantes.

Terceiro, destacável como a substituição virtual das referências religiosas pela ética civil se tornou presumida como universal e autoevidente. Este desenvolvimento pareceu mais surpreendente que no caso da Tunísia, já que no Egito a oposição religiosa sempre foi poderosa e alcançou virtualmente todos os setores da vida. A Fraternidade Muçulmana juntou-se depois do inícios dos protestos, e como todas as demais forças políticas organizadas do país pareceu se sentir acuada com os desenvolvimentos e incapaz de dirigi-los, tanto quanto o governo (com seus aliados regionais) procurou inflacionar o papel delas.

Isto, eu acho, está substantivamente conectado a dois elementos citados antes: espontaneidade e marginalidade. Ambos os processos seguiram-se à politicização de estamentos anteriormente desarticulados, e também corresponderam às demandas mais amplas que não exigiam o linguajar religioso em particular. Na verdade, a religião apareceu como um obstáculo, especialmente à luz das tensões recentes sectárias no Egito, e contradizia o caráter emergente da Revolução como acima de todas as linhas divisoras da sociedade, inclusive a religião ou religiosidade de cada um. Muitas pessoas oraram em público, claro, mas eu nunca vi ninguém sendo pressionado ou mesmo questionado a juntar-se a eles, a despeito dos tons altamente espirituais de uma atmosfera saturada de fortes emoções e constantemente alimentada com histórias de martírio, injustiça e violência.

Como na Revolução Tunisiana, no Egito a rebelião eclodiu como uma espécie de terremoto moral coletivo — onde as demandas centrais eram muito básicas, e então se agruparam ao redor do respeito ao cidadão, dignidade e o direito natural de participar da construção do sistema que governava as pessoas. Se aqueles mesmos princípios tinham sido exprimidos em linguajar religioso antes, agora eles eram expressos como tais e sem qualquer mistificação ou necessidade de autoridade divina para justificá-los. Vi o significado dessa transformação quando mesmoparticipantes da Fraternidade Muçulmana conclamaram em certo ponto todos a um estado “cívico” (NA: madaniyya) — explicitamente distinguindo-se de duas alternativas: estado  “religioso” (diniyya) ou estado “militar” (askariyya).

Quarto, um desenvolvimento forte depois de 28 de janeiro foi o fato que as demandas políticas radicais elevaram-se tanto que todas as outras insatisfações — inclusive a respeito das condições econômicas ruins — permaneceram subordinadas a elas. As demandas políticas eram mais claras que outros tipos de demandas, todos concordavam nelas, e todos partilhavam da conclusão que todos os outros problemas poderiam ser melhor negociados uma vez se colocasse um grupo responsável no poder. Assim, o combate à corrupção, uma pauta central, foi um caminho pelo qual das insatisfações econômicas foram traduzidas em linguagem política simples de ser entendida. De todo modo, correspondeu à realidade, porque o sistema política tinha se tornado basicamente um sistema de roubo à plena luz do dia. Por meses antes da revolução, todos tinham uma história pra contar sobre a corrupção ostantatória da elite político-empresarial-pilantra que se mais beneficiava do sistema. Essas histórias tendiam a condensar ao redor do filho de Mubarak. Alguns dos membros dessa elite, reportadamente, dedicaram-se a recrutar gorilas, que aterrorirazam os manifestantes por dois longos dias e noites, em 2 e 3 de fevereiro.

Quinto, como em todos lugares do Mundo Árabe, um fator central que contribuiu foi a surdez autocrática. O ressentimento maciço corrente forneceu combustível para o vulcão, tendo acumulado por anos por causa das elites no poder. Sua permanência por tanto tempo no poder fez com que elas esquecessem completamente quem era seu povo e como ler as demandas popular, por assim dizer. Elas não ouviram o barulho borbulhante antes da Revolução, e quando ela eclodiu foram muito lentos em escutar qualquer outra coisa que não um ruído indiferenciado. A via de mão única da comunicação autocrática não permitiu escutar nada de volta, ela e se dirigia aos destinatários das ordens como se fossem mera audiência ou emitentes de um barulho incoerente. Ao longo da Revolução, esta surdez das estruturas do poder ficaram evidentes com a lentidão e incerteza das respostas governamentais. No dia seguinte às manifestações de 25 de janeiro, editores dos jornais do governo menosprezaram os eventos. Em 28 de janeiro, quando todo Egito estava em chamas, e muitos líderes mundias emitiram declarações com preocupação, o governo do Egito permanecia completamente silencioso — até que Mubarak finalmente falou à meia-noite, dizendo exatamente o oposto de tudo o que todos esperavam que ele dissesse. Ele pensou que estava fazendo uma grande concessão, mas uma que — como qualquer assessor inteligente teria lhe dito — só podia ser interpretada como uma provocação, resultando em muito mais dias de protestos. Assim no dia 1º de fevereiro, ele fez outro discurso, também pensando que estava fazendo grandes concessões, embora novamente, foi recebido pelos manifestantes como o cúmulo da arrogância.

Ele estava, num certo sentido, sempre respondendo ao que ele deve ter interpretado como barulho incoerente, emergindo de massas indiferenciadas que poderiam ser acalmadas com a aparência de compromisso. As autocracias árabes há muito tempo estão acostumadas a aproximar-se de seu povo ora com desprezo, ora com condescendência. Elas não são mais habilidosas na arte da comunicação (conquanto Muhammad Shafiq, o novo primeiro-ministro, tem tentado fazer o melhor nesse campo). Claramente, a surdez autocrática foi o maior fator na escalada da revolução. Muitos manifestantes sugeriram-me que o que Mubarak falou em 28 de janeiro teria resolvido a crise se ele tivesse dito no dia 25, quando ele nada disse. E o que ele disse em 1º de fevereiro teria também resolvido a crise, se tivesse dito em 28 de janeiro.

Quando nenhuma dessas concessões conseguiram dispersar a crise, os novos nomeados por Mubarak não tinham mais argumentos sérios para explicar por que ele pretendia manter-se no poder só por mais alguns meses, em face de uma revolta determinada que, na verdade, não estava desafiando várias outras porções do sistema. Em 3 de fevereiro, seu novo primeiro-ministro disse que não era comum na cultura egípcia um líder sair sem sua dignidade. Citou como evidência a saudação concedida ao rei Farouk quando fora forçado a sair do Egito em 1952! E no mesmo dia, seu novo vice-presidente opinou que é contra a índole da cultura egípcia insultar a figura do pai, que ele alega ser Mubarak em relação ao povo do Egito (num momento de esquecimento da revolução logo ali fora). E o próprio presidente declarou no mesmo dia que ele não poderia possivelmente renunciar, porque se assim fizesse o país decairia no caos — incrivelmente, não percebendo o que todo mundo no país sabia: que o caos já estava em todo lugar.

Quando não há surdez autocrática, todos os políticos bem-sucedidos, inclusive os manipuladores, sabem que a arte da manobra consiste em antecipar o próximo passo de seu inimigo ou audiência, de modo que você já esteja ali antes que seja tarde demais. Aqui nós tivemos a situação exatamente oposta: uma autocracia letárgica, não tendo nunca conhecido qualquer contestação séria, estava desavisada de quem se tornariam seus inimigos, que neste caso eram mais ou menos a vasta maioria do país. Com isso, em 2 de fevereiro alguns dos simpatizantes de Mubarak não acharam nada melhor para fazer do que enviar camelos e cavalos para dispersar a multidão na Praça Tahir, o que refletia o seu caráter antiquado: um regime de uma era ultrapassada, com nenhuma conexão com o tempo à mão. Foi como se uma ruptura no tempo acontecera, e nós estávamos testemunhando uma batalha do século 12. De minha perspectiva naquela multidão, era como se eles cavalgavam através e depois eram engolidos direto na dobra do passado. Em contraste, comitês populares na vizinhança, com suas armas rudimentares e completa ausência de ilusões, representavam o que a sociedade já tinha se tornado com esta revolução: um corpo real, controlando seu presente e de baixo pra cima.

Neste momento, fora do peso morto de décadas de autodesprezo e ensimesmamento, emergiu ordem espontânea para fora do caos. Esse fato, melhor do que a condescendência patriarcal impessoal, representa a melhor esperança para a aurora de uma nova ordem civil.



Mohamed Bamyeh é professor de sociologia na Universidade de Pittsburgh, Ph. D. pela Universidade de Wisconsin-Madison, com áreas de interesse em estudos islâmicos, sociologia da religião, globalização política cultura, sociedade civil e movimentos sociais, autor de diversos livros como Anarchy as Order: The History and future of Civic Humanity (2009); Of Death and Dominion: The Existential Foundations of Governance (2007); The Ends of Globalization (2000); e The Social Origins of Islam: Mind, Economy, Discourse (1999).

sábado, 15 de outubro de 2011

Uma revolução calada

Nos dias que passei no Egito o tempo foi de calmaria. Se não fosse pelo prédio do antigo governo de Hosni Mubarak, ex-presidente, e os restos de projéteis pelo chão, não era possível saber que o País passou por uma revolução. Embora vestígios dos protestos ainda permaneçam, não há confrontos entre policiais e manifestantes. Muitos vivem com medo de falar algo devido à lei de emergência que ronda o País. Isso espanta qualquer pessoa que chega ao Egito. O espantoso é que mais de 850 pessoas morreram e milhares ficaram feridas para retirar o ex-ditador  Mubarak, mas agora permanecem com um governo militar.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O mar e o lixo

Não é difícil se impressionar com a beleza do mar Mediterrâneo, que serve de abrigo para quem precisa fugir do calor do deserto. No entanto, a triste cena é ver tanto lixo na praia e ninguém retirar. Observação: não existem mulheres tomando banho no local.

sábado, 1 de outubro de 2011

O exército nas ruas


A imagem foi tirada em uma aventura até a Faixa de Gaza. Ao todo, foram mais de 15 barreiras militares disputando espaço com a rodovia. Em cada parada, uma revista no carro. No entanto, os militares ficavam apontando arma para nossas cabeças.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Férias forçadas


Estudantes no bairro de Gizé
Em setembro começa o ano letivo no Egito. Na capital Cairo, muitas crianças chegaram nas escolas, mas não conseguiram ir à aula. O motivo não é férias, e sim greve. Muitos professores da capital Cairo estão de braços cruzados pedindo melhoria no trabalho e no salário.

Não são apenas os professores que estão em greve. Outros profissionais devem ficar parados. Essa onda de greve começou após as manifestações de janeiro e fevereiro e devem permanecer pelo ano todo. O Egito está com uma economia fraca e os trabalhadores não estão ganhando nada bem.

sábado, 24 de setembro de 2011

Embaixada é cercada após protestos


Após o embaixador de Israel no Egito, Yitzhak Levanon, deixar o Cairo, não há mais manifestação em frente ao prédio. No lugar de um muro, que antes protegia os diplomatas, mais de 20 policiais fazem uma barreira humana e não deixam ninguém trafegar pelo local. Pela avenida onde ficava a estrutura é fácil observar sinais do protesto.
A embaixada israelense foi alvo de uma manifestação na madrugada do dia 10 de setembro. Uma multidão, munida de pedaços de madeira e ferro, ocupou a o local e queimou a bandeira de Israel. A ação foi uma represália por causa da morte de cinco policiais egípcios na fronteira com o País vizinho, próximo à Faixa de Gaza.
Após o protesto, o governo do Egito declarou estado de emergência e o embaixador de Israel teve que deixar o País. Segundo um guia local, a polícia e o exército dificultam a entrada de qualquer pessoa na embaixada. “Até turistas eles barram”, enfatiza.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Egito em segundos


Um Egito melhor

É difícil falar com egípcios, pois eles têm medo do governo militar. O comerciante *Sherie Mohamed, 29 anos, que trabalha em um hotel no Cairo, resolveu conversar por uns 15 minutos. Em troca, comprei umas lembranças para levar ao Brasil.

Com camisa 100% algodão e bem passada, o comerciante alega que vê no Egito grande possibilidade de crescimento, mas é preciso uma mudança ainda maior. Ele se refere ao fim do governo militar, que entrou no poder apenas para garantir uma eleição segura. Mas o militarem vêem com bons olhos a permanência do regime.

Longe de qualquer confusão, Sherie não garante que um novo governo possa mudar muitos anos de corrupção instalada no Egito. Mas acha que pelo menos as pessoas terão mais direito de falar o que quiserem. Se fosse aqui no Brasil, Sherie usaria o termo “ir e vir”.

Ele é mais positivo quando fala de seu País. Para o comerciante, o Egito é bom para se viver e chama a atenção do mundo todo. Não está errado, mas ele esquece da maioria da população que vive em situação precária.


*Nome fictício para preservar a identidade do comerciante, embora ele deixou ser fotografado.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O que aconteceu no Egito


Ex-presidente Hosni Mubarak - Foto: Folhapress

O Egito começou o ano de 2011 com um ar de revolução popular, que vinha do País vizinho Tunísia. Lá o presidente Zine El Abidine Ben Ali foi derrubado do poder após manifestações. Já em janeiro, o então presidente egípcio Hosni Mubarak, 82 anos, já sentia que o fim dos 30 anos de governo estariam perto do fim.

No final do primeiro mês do ano, mais precisamente no dia 25, milhares de pessoas se juntaram para protestar. A praça Tarhir, no coração do Cairo, foi o palco da revolução. Após 18 dias de violentos protestos, o número de mortos já estava estimado em 300. Foram pelo menos cinco mil feridos.

No dia 11 de fevereiro, o ex-presidente anuncia que iria deixar o cargo, para a festa de milhares de egípcios.

Não é apenas no Egito, Líbia e Tunísia que há revoltas. Outros países que querem mudar seu governo são Jordânia, Iêmen, Argélia, Mauritânia, Sudão e Omã.

Julgamento de Mubarak apenas em 28 de dezembro


Se depender da população egípcia, o ex-presidente Hosni Mubarak não precisa ficar preso, mas sim morto, como eu já havia dito aqui neste espaço. Mas novos confrontos devem acontecer se a Justiça do Egito continuar adiando o julgamento do ex-ditador. Agora, uma nova audiência está marcada para o dia 28 de dezembro.

Para os advogados de acusação, o juiz Ahmed Refaat pode estar favorecendo o ex-presidente. Segundo um jornal local, os advogados pediram ainda a substituição do juiz.

Hosni Mubarak é acusado de estar envolvido com a morte de dezenas de manifestantes e corrupção.  Atualmente ele está em um belo hospital mais distante do centro do Cairo.

Lixo nas ruas


Em uma rua do Cairo, três homens andam de motocicleta sem segurança

A cultura do Egito é bastante diferente a do Brasil em muitas situações. Uma, que todos conhecem, é a religião - apenas 10% de cristãos e 80% a 90% mulçumanos. Outra diferença que não estamos acostumados a ver numa cidade grande é o comércio na rua sem muita higiene. Pães são vendidos sem nenhuma proteção para evitar insetos, isso acontece com carnes e peixes.

No entanto, o que é mais visível é a limpeza das ruas. Quando o motorista contratado pela reportagem jogou uma latinha na rua, indaguei que isso poderia dar multa em alguns lugares do Brasil - esses tempos um joinvilense foi multado quando jogou uma bituca de cigarro no chão. Mas ele disse que lá pode. E dá para observar nas ruas isso. 

Abrindo cabra no meio da rua no centro do Cairo
Lotadas de lixo e areia, as vias do Cairo não têm sistema de limpeza ou coleta seletiva de lixo. Os lixões ficam no meio da cidade, mas não há aterro sanitário. Os resíduos são jogados e empilhados num canto, quando não são queimados nas rodovias durante à noite.

Sem gasolina no deserto


Ficar sem gasolina no meio de uma cidade grande é uma situação ruim para qualquer pessoa. Ainda mais quando não há um posto de gasolina perto. Imagina o combustível acabando no meio de um deserto? A situação aconteceu a caminho da Faixa de Gaza, um dos principais objetivos na ida até o Egito.

Atualmente apenas no Cairo existe gasolina em abundância, embora a província de Sinai seja rica em petróleo. Em quatro horas do Cairo até a fronteira com Gaza foi normal. O tanque cheio e o ar condicionado ligado para suportar os 40º graus do deserto. Mas na volta, já com o tanque quase na reserva, começou a peregrinação por um posto que ainda vendesse gasolina.

O problema é que o combustível não é mais de fácil acesso após a crise no País. Todos os postos da região de Sinai não vendiam mais gasolina. Em cada posto um frentista abanava a mão fazendo um sinal negativo.

Cada quilômetro com o painel do veículo apontando a reserva era nauseante, isso porque o ar condicionado também estava desligado para evitar mais gastos. Para piorar, a areia do deserto tem um cheiro forte, que incomoda quem não está acostumado.

Quando tudo parecia perdido e a ideia de dormir no meio do deserto já era clara e concretizada, um posto tinha 20 litros para oferecer por cliente. Uma fila enorme de veículos estava em nossa frente, mas tudo era festa. Eu não iria dormir no deserto.

Logo mais a frente, no Cairo já, outro posto tinha gasolina. Mais duas horas de viagem e chegamos no hotel. Era tudo o que eu queria depois da aventura.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Crise política e econômica




Basta poucas horas pelas ruas do Cairo e conversas com habitantes locais para observar o porquê do povo ir às ruas em janeiro e fevereiro manifestar. A capital egípcia tem muitos problemas de cidade grande - falta de saneamento, infraestrutura urbana e saúde pública -, mas a economia fraca é o principal motivo para deixar tantas pessoas na miséria.


Ao conversar com um guia local, que fez faculdade da língua espanhola por quatro anos e estudou mais dois para se tornar guia, ele diz que a única coisa que consegue fazer com o dinheiro que ganha é dar roupas e alimento aos dois filhos. Seu salário mensal é em torno de 600 libras egípcias - aproximadamente U$ 100. Ganha um pouco mais quando consegue algumas gorjetas.


Se fosse aqui no Brasil, uma pessoa depois de estudar seis anos ganharia R$ 600. Não digo que não possa haver no país casos assim, mas no Egito é muito comum. Ainda piora quando os turistas deixam de visitar o país, como está acontecendo em 2011.


Contrastando com isso, o ex-presidentedo Egito Hosni Mubarak, depois de 30 anos governando, tem uma fortuna estimada em 5 bilhões de dólares. Especula-se que esse valor pode chegar a 65 bilhões. Todo o dinheiro estaria investido em propriedades em Londres, Nova York e Paris. 


Homem vende cigarros entre carros

Como muitos egípcios, comerciante se aventura entre o tráfego intenso para vender seus produtos. Falta de dinheiro e a necessidade de sobreviver, leva a se arriscar diariamente e a enfrentar o sol forte de verão. 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Queremos um País forte


Mulher caminha em frente a prédio incinerado em protesto
Os egípcios ainda têm medo de falar sobre a queda do presidente Hosni Mubarak, mesmo após sete meses do episódio. Um dos motivos é a lei de emergência, que muito tem assustado a população. 


As pessoas não arriscam discutir sobre política na rua. Mas dentro de residências, onde não há policiais, alguns egípcios mostram um Egito pós “ditadura”.


Sabry M. Armed, 28 anos, manifestou na praça Tarhir em janeiro e hoje diz estar feliz com as mudanças no País. Agora, espera ansioso pela votação em novembro para escolher um novo governante.
Entrevistei o egípcio para saber como um habitante daqui vê as mudanças depois da revolução que ainda está acontecendo, mas que não é mostrada para o mundo.
Novo Egito
Depois da queda do ex-presidente, militares estão nas ruas
Egito é um país seguro, depois de deixar a corrupção e castigar as pessoas más. A economia está aumentando muito, os salários só aumentam depois da revolução. O Egito é um país forte, rico por ter o Canal de Suez, petróleo, polícia e um exército bom que é capaz de nos proteger, proteger as fronteiras.
Democracia
Temos agora uma democracia, justiça social. Os serviços como educação e hospital são melhores que antes.
Agricultura
A agricultura depois da revolução aumentou muito porque o governo egípcio tem interesse na agricultura. Também a indústria  floresceu porque, depois de acabar com a corrupção, os projetos de investimento aumentaram.
Relação com países vizinhos
Nossas relações com países vizinhos são excelentes, como Israel e o povo palestino.
Novas leis
Agora todas as leis foram criadas por uma manifestação pacífica e protegem a gente e as eleições que serão em dois meses para eleger um presidente que governará quatro anos.
Presidente
Queremos eleger o presidente do país, que governará junto com o povo por quatro anos até outra eleição.
Palpite
Amr Moussa, chefe anterior, deve ganhar as eleições.

Trânsito do Cairo em segundos


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Mubarak morto

A imagem do ex-presidente Hosni Mubarak sendo julgado não agradou uma boa parte da população egípcia. Isso porque o ditador está em um hospital e não em uma cela.  Questionado o que achava de Mubarak, um egípcio foi além e disse que se o ex-presidente for condenado à prisão vai ter protestos. "Queremos que ele seja enforcado em praça", disse.

Famosos tecelões do Egito


Depois de muita andar sobre o deserto, uma parada nos famosos tecelões do Egito.

A arte de tecer também é milenar e uma das especialidades dos egípcios. Um tapete ou um pedaço de pano tornam-se verdadeiras raridades se feitos pelas mãos de um tecelão.

O valor varia muito. Os pequenos custam U$ 5. Mas podem chegar a U$ 2 mil. Dependendo do tamanho e das cores. Variedade para os olhos, para os gostos e para os bolsos.


domingo, 18 de setembro de 2011

Moradias populares


Moradias se concentram ao lado de rodovias: Foto: Jacson A.
De tijolos sem reboco e muito menos tinta, vivem milhares de pessoas que não têm dinheiro para adquirir uma casa minimamente confortável. Este é apenas um dos grandes contrates econômicos e sociais do Egito.

Enquanto o Centro é rodeado por estrutura esquecidas pelo governo, que acabam sendo tomadas por pessoas sem dinheiro, ao redor da capital observa-se conjuntos habitacionais precários.

E para onde vão os que tem dinheiro? Para longe. Os mais sortudos financeiramente deixam o Centro e a periferia da capital para seguir mais distante, usufruir de sossego e segurança para os habitantes e para o patrimônio. 

Símbolo da revolução

Antigo prédio do partido de Hosni Mubarak - Foto: Jacson Almeida

Depois de observarem de perto a queda do chefe de governo do País vizinho Tunísia, egípcios começaram um protesto que iria por várias semanas. Em 1º de fevereiro, cerca de 500 mil pessoas protestaram na praça Tarhir. Ou seja, a população de Joinville concentrada em um único local.

Hoje um símbolo dessa guerra ainda está no coração do Cairo, ao lado do famoso rio Nilo. É o prédio do partido de Mubarak. A estrutura de aproximadamente 13 andares está carbonizada por causa do incêndio provocado pelos manifestantes durante os protestos. Hoje o local está abandonado.


sábado, 17 de setembro de 2011

Turistas se afastam após revolução popular

Esfinge, local escolhido pelos turistas - Foto: Jacson Almeida
Após as constantes mobilizações no Egito, mais coisas mudaram do que a política. O setor mais afetado tem sido o turismo, principal fonte de renda do País. Os visitantes deixaram de visitar os lugares históricos com medo da revolta popular.

De acordo com um guia local Sabry, 28 anos, não há muitos turistas. Trabalhando em uma agência do Cairo, ele vê uma grande diferença na quantidade de visitantes se comparado ao ano passado.

Os números da Agência Central de Estatística do Egito não são nada animadores e reforçam as palavras de Sabry. Só no primeiro trimestre de 2011, em relação ao mesmo período de 2010, o turismo caiu 46%.

Conforme números da agência, apenas 1,9 milhão de turistas visitaram o Egito no primeiro trimestre desse ano. Um dos motivos das pessoas não escolherem mais o Egito como destino é o medo de ir para um País onde há muitos protestos. 

“Queremos uma economia forte”, diz egípcio


O papiro é um das formas de papel mais antiga do mundo. Mesmo com tantas outras opções hoje para comprar, o Egito continua fabricando o milenar papel.
Handy Ellamey, 30 anos, é dono de uma loja que vende papiro para o público local e visitantes. Assim como boa parte dos egípcios, ele está meio arisco para dar entrevista. Talvez seja o medo que impera em toda a população.

Fora dos holofotes da imprensa, Ellamey gosta de falar de política e, acima de tudo, de fazer política. Assim como milhares de pessoas, ele também foi para a Praça Tahir no começo do ano protestar contra o governo de Mubarak.

De acordo com ele, a batalha do povo egípcio ainda não terminou. O que eles querem é acabar com a odiada lei de emergência, que vigora no País desde a manifestação, em 10 de setembro, na embaixada de Israel, na capital.

Criada há mais de trinta anos, a lei, segundo moradores locais, dá ao governo o poder para colocar qualquer cidadão na prisão, inclusive manifestantes. Ellamey reforça que os egípcios apenas querem trocar de sistema. “Não queremos Mubarak, não queremos militares. Queremos uma economia forte e eleições”, diz

Experiência


Não é fácil para um repórter entrevistar um País que vive com medo. Mesmo depois de uma revolução popular, os egípcios não gostam de falar sobre política por causa do governo militar, que fica  no poder até a população escolher um presidente nas urnas. Mesmo um comerciante humilde, quando perguntei algo, disse que não iria complicar com os militares.

Já Ellamey ficou pelo menos 15 minutos olhando o que o repórter escreveu. Conforme ele, não é difícil a inteligência do governo achar a entrevista dele.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Embaixadores de Israel deixam Jordânia

Os repetidos movimentos do povo egípcio têm sido copiados pelos países vizinhos. O último deles, a expulsão do embaixador de Israel, veio a calhar para a popular de Amã, capital da Jordânia. O País também é contra a situação em que vive atualmente os palestinos. Com medo de protestos, Israel tirou os diplomatas da nação.

O jornal egípcio Haaretz repercutiu o caso e informou que o ato de deixar a Jordânia é normal, sempre feito às quintas-feiras. Seja por isso ou outro motivo, o fato é que ativistas da Jordânia já preparavam manifestações contra Israel e em favor de um Estado Palestino. Um dos objetivos era acabar com a diplomacia entre os países e anular o tratado de paz.

O comércio no Egito

Comerciantes ambulantes do Egito - Foto: Jacson A.
A imagem do comerciante do oriente médio chega a qualquer canto do mundo. O poder de negociação dos árabes, marroquinos e libaneses é inegável. No Egito, não é diferente.

Com os problemas econômicos dos últimos tempos, a disputada por um freguês está mais acirrada. E os comerciantes se tornam verdadeiros predadores.

A técnica dos vendedores é colocar o produto na mão do possível cliente e não pegar mais. Aí começa a pedir dinheiro. Se a pessoa não aceitar, inicia a negociação e o preço do produto cai até que o cliente aceite pagar.

Apenas a figura de um guia consegue espantar os comerciantes e fazer com que o visitante consiga passear com sossego sem ser agarrado a cada barraca diferente que passe.

Protesto acabou, mas a revolta continua


Praça Tahrir, local de protestos
Da cidade dos sonhos para se conhecer, o Cairo transformou-se na capital das revoluções que se abateram sobre a África neste ano. A capital passou por diversos embates, principalmente em janeiro e fevereiro deste ano. Mas a batalha não terminou até que se realize a primeira eleição dos últimos 40 anos.

Numa rápida olhada pela infraestrutura do local, é possível perceber nitidamente as marcas dos protestos. Nas ruas, muros estão destruídos e cartuchos de balas forram o chão. O exército truculento se encarrega da missão de assustar o povo para que a cena não volte a se repetir.

Enquanto isso, o ex-presidente Hosni Mubarak vive com luxo num hospital do Cairo, em regime de cárcere. Ele estava no comando desde 1981, mas foi expulso após diversos protestos protagonizados por crianças, adultos e idosos, sejam eles mulheres ou homens.

Hoje calado com medo do exército, o povo acredita ainda que haverá mudança após a esperada queda do ditador. Esta crença é levada a cada dia e, talvez, por isso ainda continuem os embates por aqui. Só a realização dum pleito colocaria fim no conflito.

O trânsito no Egito


Vivemos em Joinville num embate diário para a educação do trânsito para que motoristas, motociclistas e pedestres cumpram à risca as regras. Aqui pelo Egito o negócio não é bem assim.

Em vez da leis e das multas, o que basta é o bom senso, ou a falta dele às vezes. Sem nenhuma diretriz para direcionar o vai-e-vem de veículos, é no improviso que a coisa acontece.

É comum ver episódios com gente andando sem capacetes - raro é ver o contrário - e uns ultrapassando os outros apenas usando a buzina.
Para organizar o povo em cima do veículo, não há limites. Põe-se o quanto puder ou couber.

Nesta guerra diária do trânsito, o pedestre é que sai em desvantagem. Não há faixa de segurança e muito menos semáforo. O jeito para atravessar é partir numa rápida corrida, em que um bom reflexo é o mais importante.

Pior do que este caos no tráfego é perceber que não há acidentes. No tempo que fiquei por aqui não vi batidas, atropelamentos e outros problemas. Será que o mesmo aconteceria em outra cidade do Brasil com 18 milhões de habitantes e com severas leis de trânsito? Acredito que não.


Exército contrasta ruas do Cairo

O povo egípcio vive numa genuína história de ironias. Após passar 40 anos sem ter uma eleição, o povo revolta-se em pouco tempo e derruba o líder ditador Mubarak.

Para controlar os ânimos do povo, que comemorava a vitória, assume o poder o exército do País. E a cena volta a ser a mesma. Medo, falta de liberdade e a imposição de poder voltaram a uma nação que mal pode comemorar a vitória política popular.

Ao andar pelas ruas do Cairo é comum dar de cara com militares, armas e um ambiente constrangedor, seja para os moradores ou visitantes. Não é nada confortável ver tanques de guerra pronto para controlar a população em caso de mais manifestações.

Este é o ambiente que vi neste primeiro dia. Não estava preparado para isto. O meu trabalho não me preparou para algo como estou vendo agora. Muito menos a faculdade. 


Cairo

A chegada no aeroporto do Cairo, após 15 horas de voo entre Brasil e Egito, foi apenas por volta das 23h50 de quinta-feira, dia 15. Dois dias de viagem e consigo enfim chegar ao tão merecido hotel. O lugar de descanso fica nada menos do que cinco quilômetros da Praça Tahir, ponto de movimentos políticos importantes para o País. O local foi palco de protestos e embates que derrubaram o ditador Hosni Mubarak.

Neste primeiro dia da capital do Egito, com mais de 18 milhões de habitantes e lugares milenares para conhecer, a única coisa que quero é uma cama para descansar. Nada mais. Na sexta, sei que será um longo dia e com muita coisa para garimpar no pouco tempo que terei por aqui.

Nestes minutos que passei entre o aeroporto e o hotel, percebi o universo que há entre o Brasil e o Egito. Não falo de condições econômicas,e sim da cultura de povos totalmente diferentes.

Mesmo numa metrópole, me assustei ao ver um trânsito sem sinalização e mesmo assim as pessoas se entendendo. O tráfego nada mais é do que um amontoado de veículos um buzinando para o outro. E os motociclistas circulando sem nenhuma segurança e muito menos capacete.

No meio de tanta coisa, o deslumbre pelo tom marrom da cidade logo foi embora. A minha atenção foi roubada, nesta quinta-feira, pelo calor fumegante de 40 graus.